A Sublime Arte de Envelhecer

Arte de EnvelhecerA Sublime Arte de Envelhecer

1)  Introdução:

Comparação com as estações do ano: depois da primavera e do verão, chegamos ao outono com suas belas cores, amenidade do sol e alegria das colheitas …É a arte de envelhecer!

A pessoa idosa não precisa mais produzir nada, não precisa conseguir reconhecimento pela sua produtividade. Ela simplesmente está aí.

Muitas pessoas idosas têm coisas importantes para dizer ao mundo, mas a maioria não tem uma plateia que as escute, nem ambiente para dizê-las.

2)  O Sentido da Velhice:

A pessoa idosa tem uma proximidade especial do eterno. … todo o terreno se relativiza… muita coisa que parecia da maior importância torna-se insignificante; outras coisas que achava sem importância crescem em seriedade e intensidade.

3)    Aceitação de sua Própria Existência:

  1. Algumas pessoas se aceitam enquanto têm sucesso, são requisitadas, são estimadas e estão no centro do interesse geral. Mas quando ninguém mais liga para elas, começam a se lamuriar e queixar. Fica claro então que elas mesmas não se aceitaram. Construíram sua vida sobre o reconhecimento dos outros, derivando disso seu sentimento de valor próprio.
  2. Reconciliação com o passado. Não é tarefa fácil reconciliar-se na velhice consigo e com sua vida …”quanto mais velho fico, mais me pesa tudo o que não fiz, onde fracassei, onde eu me recusei por preguiça e dureza de coração, por ambição de poder, por egoísmo”.

Muitas pessoas idosas reclamam de tudo e estão insatisfeitas com Deus e o mundo. Muitas têm a impressão que foram prejudicadas em sua vida. Giram sempre em torno do passado, em torno das pessoas que as prejudicaram, em torno do destino que lhes aprontou coisas ruins e das dificuldades por que passaram. … Tais pessoas não querem admitir que não podem fazer o passado voltar atrás. Não podem mudar o que passou, mas podem mudar sua atitude para com ele. … Foi isso. Doeu. Mas não darei mais nenhum poder ao passado sobre mim. Eu superei tudo e estou muito feliz com isso”. Agora é decisão minha de como quero viver, se deixo determinar minha vida toda pelo passado ou se coloco um ponto final nisso e me volto para o presente. O passado só possui sobre mim tanto poder quanto eu lhe der. Outras pessoas me feriram e prejudicaram, mas se dou a elas agora ainda poder de estragar minha vida toda, isto é decisão minha. Isto não depende mais delas. Sou responsável pela maneira como gostaria de viver agora”.

  • Aceitar seus próprios limites
  • Aprender a lidar com a solidão

A solidão faz parte da velhice. Pessoas conhecidas e íntimas morreram; em muitas atividades dos jovens não podem mais participar e alguns idosos se sentem isolados do convívio por causa da sua dificuldade de ouvir.

A aceitação da solidão é um caminho para a sabedoria (Hermann Hesse).

4) Abandonar

Depois do aceitar vem o abandonar. A velhice nos desafia a treinar o abandonar. …

Para crescer e ficar renovados, precisamos sempre abandonar coisas antigas. Na velhice este abandonar fica mais claro e muitas vezes também mais doloroso. … Primeiro temos de abandonar nossa vontade própria, depois a atividade, depois o eu e finalmente a vida.

Jung acha que após a meia-idade só continua viva a pessoa que está preparada para morrer, pois a morte é o ápice do abandonar. Faz parte da primeira metade da vida o combater e lutar e, da segunda metade, o abandonar.

  1. Abandonar as posses : Pessoas idosas se apegam muitas vezes a suas posses … tem o sentimento de ainda estar vivas … quem consegue abandonar na velhice suas posses, quem as doa aos pobres ou a lega aos filhos fica interiormente livre. Quem se fixa nas posses fica preso por demais ao chão.
  2. Abandonar a saúde: devemos cuidar da saúde … mas mesmo que tenhamos feito o máximo por ela, ficaremos sempre mais velhos, mais fracos e doentes…. quem idolatra sua saúde será constantemente perturbado por medos que ela possa desaparecer.
  3. Abandonar as relações: Na velhice as relações diminuem. As pessoas com as quais mantínhamos contato e amizade morrem e nos deixam cada vez mais sós. Os filhos não podem preocupar tanto conosco como talvez o quiséssemos. Na velhice, muitos temem que seu caro consorte morra antes dele e então o mundo viria abaixo e a vida não mais valeria a pena ser vivida…. a velhice temos de aprender a ficar sozinhos.
  4. Abandonar a sexualidade.
  5. Abandonar o poder:
  6. Abandonar o ego: abandonar o próprio eu é sem dúvida a tarefa mais difícil. Podemos treinar o abandono do ego pela meditação, pelo amor, pela oração. Nós abandonamos o ego quando concordamos do fundo do coração que não estamos mais no centro do interesse, que ninguém mais precisa necessariamente de nós, que não temos mais nenhum poder e nenhuma influência.

5) Fecundidade

Quando o aceitar e o largar dão certo, a vida daquela pessoa recebe nova fecundidade na velhice. … O trabalho da pessoa idosa tem de estar livre da pressão de comparar-se com o de outras pessoas. E precisa transferir-se mais do material-funcional para o humano.

As pessoas idosas que se dedicam a outras pessoas e que desenvolveram uma percepção das necessidades das pessoas são mais felizes do que aquelas que só se isolam e gravitam em torno de si mesmas.

Outra maneira de viver a velhice em sua variedade são os hobbies. Quem ama seu hobby fica intimamente satisfeito…. uma boa paixão é uma bela ajuda contra o perigo da amargura. Quem se absorve em seu hobby desenvolve muitas vezes criatividade e fantasia… Quanto mais o mundo é tirado da pessoa idosa, tanto mais importante é para ela o hobby no qual pode construir e formar este mundo. Algumas pessoas descobrem na velhice sua capacidade de pintar, de escrever ou de artesanato. Acham que seu tempo livre agora é uma benção. Não sentem tédio…

Uma tarefa importante da velhice é ser ponte entre gerações, intermediar o velho e o jovem. Os netos gostam de visitar os avós porque junto deles não são julgados e muito menos condenados; junto a eles podem ser o que são. E muitas vezes os avós intermediam entre pais e filhos.

O colorido da velhice apresenta hoje muitas facetas.   … faculdade da terceira idade; círculos de discussão; viagens  etc. Como não têm nada a perder, estão abertas ao que realmente importa….

6) O Caminho do Silêncio

Faz parte do envelhecimento a tranquilidade. Ela é um reflexo sobre o que foi e o que é. É também o ficar tranquilo diante da vida e da morte.

Para viver bem a tranquilidade, é necessária a força da recordação. Recordar não significa que eu só viva do passado, mas que tenha presente agora o que eu vivi no passado. Quanto mais velhos ficamos, mais nos recordamos e a qualquer dia percebemos que a maioria, senão tudo o que temos, é a recordação.

7) Conclusão

Nós, idosos, estamos numa tensão singular e única entre a ânsia de prosseguir nesta vida e a esperança da vida eterna.

Ninguém de nós, que estamos envelhecendo pode avaliar e garantir se o seu tornar-se mais velho será bem-sucedido. É uma grande arte, treinar-se para isso e dominar o envelhecimento… mas quando nos treinamos na arte de envelhecer, podemos confiar que Deus dá sua benção ao nosso esforço que nos concede a sabedoria e a serenidade, a liberdade e a benevolência da velhice.

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Resumo e adaptação por MURILO MAIA ALVES do livro “A sublime arte de envelhecer” de Anselm Grün (Editora Vozes, 2015).

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Cida Griza

About Cida Griza

. Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise - PUC/PR . Especialização em Atenção à Saúde do idoso (Gerontologia) - UFSC/SC . Coordenadora da Abraz-Subregional de Joinville/SC (2002 - 2010) . Professora Universitária na disciplina de Geriatria e Gerontologia - ACE/SC . Professora do curso de pós graduação em Gerontologia - FURB/SC . Professora do Grupo ECM - Estimumlação Cognitiva e Motora

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